segunda-feira, 24 de novembro de 2008

“A Virgindade por amor do Reino dos Céus”

Depois de quanto dissemos sobre a dimensão cristã e sacramental da sexualidade humana e do matrimónio e da beleza da união nupcial como comunhão de amor, fica-nos a pergunta: que sentido tem a virgindade como vocação cristã, que exclui as núpcias humanas e supõe a renúncia a uma certa vivência da sexualidade? É preciso reconhecer que esta questão é hoje levantada por muitos cristãos, porventura por alguns daqueles e daquelas que escolheram a virgindade como caminho de vida.

Mas se alargarmos o horizonte do nosso olhar à sociedade como um todo, verificamos que a virgindade é um caminho incompreensível, quando muito aceite no contexto do respeito pelas opções da vida pessoal e privada. As causas desta rejeição encontramo-las no naturalismo de toda a nossa cultura, distante da dimensão sobrenatural da existência, que encontra na liberdade sexual uma das suas concretizações. Mas é preciso não esquecer que também o matrimônio cristão é uma ruptura com essa perspectiva naturalista da sexualidade, pois no sacramento esta é elevada à vivência de fé da comunhão de Cristo com a Igreja. O quadro de compreensão do sentido da escolha da virgindade é da ordem sobrenatural da fé, tem como quadro de referência comparativo a vivência da sexualidade no matrimônio cristão, autêntico caminho de santidade e não uma visão naturalista da sexualidade e do amor. Na perspectiva da fé, há mais proximidade entre a virgindade e o matrimônio cristão do que entre este e essa visão naturalista da sexualidade e do amor.

O amor humano na perspectiva do Reino.
2. A partir da nossa adesão, pela fé, a Cristo Ressuscitado e da nossa união vital a Ele, pelo batismo, toda a nossa realidade humana e, de modo particular, a nossa caminhada no amor, ganham sentido na perspectiva do Reino de Deus. É a “vida nova” segundo o Espírito que nos é dado.

São João no prólogo do seu Evangelho situa este horizonte novo em que passa a situar-se toda a vida dos discípulos de Jesus: “a todos aqueles que O receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que acreditam no Seu Nome, que nem o sangue, nem o querer da carne, nem o querer do homem, mas só Deus gerou” (Jo. 1, 12-13).

Esta é a novidade radical da vida cristã, que não anula a vida natural, mas a purifica e eleva a ponto de ser vivida com a radicalidade de Deus. No que ao amor e à sexualidade diz respeito, a sua vivência passa a ser a comunhão no amor de Deus pelo seu Povo, de Cristo pela sua Igreja. Quer seja vivida no sacramento do matrimônio, quer na virgindade consagrada, a capacidade humana de amar exprime-se em Cristo e no Seu amor pela Igreja. Ambos os caminhos são participação no amor esponsal de Cristo pela Igreja, cujo corpo integramos. Membros da Igreja, amada por Cristo como uma esposa, ao construirmos o nosso caminho de amor, somos amados por Cristo esposo, amamos naqu’Ele que nos amou.

Entre a virgindade e o matrimônio cristão, nas diferenças específicas de cada carisma, há algo de comum: fazer da nossa sexualidade, com a força do Espírito Santo, um caminho do amor-caridade. Descobre-se o sentido específico da virgindade, não numa oposição negativa em relação ao sacramento do matrimônio, mas numa convergência positiva e mutuamente interpelante e enriquecedora, pois ambos são caminhos em que aceitamos deixar transformar todas as nossas forças de amor pelo amor de Jesus Cristo. É bom lermos, a este respeito, um texto da Familiaris Consortio: “A virgindade e o celibato pelo Reino de Deus, não só não diminui em nada a dignidade do matrimônio, mas antes a pressupõem e confirmam. O matrimônio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu Povo. Quando não há apreço pelo matrimônio, não o há também pela virgindade consagrada; quando a sexualidade humana não é considerada um grande valor dado pelo Criador, perde o seu significado a renúncia pelo Reino dos Céus” 1.

Virgindade um dom explicitamente cristão.
3. O celibato por amor do Reino dos Céus é, na sua vivência e na sua compreensão, uma experiência explicitamente cristã, que tem em Cristo o seu modelo inspirador, e na união a Ele a força que a motiva. Nenhuma referência extra-bíblica à virgindade, cultural ou cultual, conhecidas na antiguidade, pode ser considerada antecedente desta vocação cristã. Nem sequer o tão falado celibato praticado pelos essénios da comunidade de Qum’ran. É que entre eles “a virgindade era mais a recusa global da sexualidade do que a escolha de um valor; e os motivos de uma tal rejeição estavam na concepção da sexualidade como uma realidade negativa, quase demoníaca” 2, perspectiva completamente ausente da tradição bíblica.
No Antigo Testamento, devido ao sentido positivo da sexualidade e ao prestígio da fecundidade, que via na maternidade o maior benefício de Deus, anunciador do dom messiânico, a virgindade como escolha de vida não aparece. Mas podemos encontrar sinais de um germinar progressivo de atitudes que, mais tarde, à luz de Cristo, encontrarão o seu significado pleno no celibato voluntário por amor do Reino.
O culto de Yahwé exige a continência temporária, pois o serviço de Deus exige uma unificação interior que a continência ajuda a construir (cf. Lev. 22, 3-7). Também na valorização de viuvez casta (cf. Jd. 8, 1-8 e Lc. 2, 36) onde, por falta de uma clara dimensão escatológica, a renúncia às segundas núpcias significava uma confiança total em Deus, para melhor acolher a sua Palavra e dedicar-se ao serviço dos irmãos. Podemos também citar os casos de esterilidade fecunda (cf. 1Sm. 1, 12 e Lc. 1, 5-25) em que a fé e o total abandono ao desígnio de Deus abria para uma fecundidade misteriosa, porque fora dos ritmos da natureza.
Mas aparecem-nos alguns casos de escolha do celibato por chamamento de Deus. O caso do Profeta Jeremias que diz: “a Palavra de Deus foi-me dirigida nestes termos: não tomes mulher, não tenhas nesta terra nem filhos nem filhas” (Jer. 16, 1-2). É a denúncia da caducidade do casamento e da fecundidade, manchadas pela infidelidade de Israel e o anúncio de outras núpcias, as de Yahwé com o povo e de uma outra fecundidade ao ritmo da salvação. Esta renúncia ao casamento é, em Jeremias, um sinal, como em Oseias tinha sido sinal do tempo novo, o tempo da misericórdia, o seu casamento com uma prostituta, anunciando as núpcias de Yahwé com um Israel convertido e renovado (cf. Os. 1,2 – 3,1-5).

À medida que nos aproximamos do Novo Testamento, aparecem-nos grandes figuras cuja existência é a afirmação da exclusividade de Deus. João Baptista, o “amigo do esposo”, o que anuncia o Messias e que exprime na sua existência essa radicalidade de Deus, embora fosse apenas o anúncio das realidades novas do tempo do Espírito. As palavras de Jesus a seu respeito situam-no bem como a personagem charneira entre o tempo antigo e o tempo novo: “Eu vo-lo digo, entre os filhos de mulher, não há ninguém maior do que João; e no entanto o mais pequeno no Reino de Deus é maior do que ele” (Lc. 7, 28).

Mas é em Maria e José que toda esta longa preparação atinge o seu vértice, no anúncio de uma convergência misteriosa, própria do tempo definitivo, entre três valores aparentemente não conciliáveis entre si: o matrimónio, a fecundidade, a virgindade. Esta é a escolha fundamental de Maria, deixando a Deus, em quem confia, que encontre o caminho de conciliação entre a virgindade, que nela é a expressão de uma total entrega a Deus, e o matrimónio inevitável e a fecundidade desejada.3

Cristo virgem, causa e modelo da virgindade por amor do Reino.
4. Este rosto novo da virgindade tem a ver com o tempo novo, início de uma nova criação, inaugurados em Jesus Cristo. O ser, a existência e a missão de Jesus, são profundamente virginais. O seu Ser virginal brota do mistério da união hipotática, em que a sua divindade se une radicalmente à humanidade. Na sua própria Pessoa e mistério concretizam-se as anunciadas núpcias entre Deus e a humanidade, inaugurando o tempo definitivo da criação. A sua permanente participação na comunhão de amor trinitário, unifica todas as concretizações do Seu amor nesse amor divino. A Sua virgindade é um coração indiviso, porque unificado em Deus. Todo o Seu amor pelos homens é virginal, porque amando-os, os reconduz ao único amor da Sua vida, Deus. O Seu amor pela Igreja é esponsal, porque virginal.
Jesus explica esta sua experiência, difícil de perceber no contexto judaico, com o mistério do Reino. Aos discípulos, que mostram dificuldade em aceitar as exigências do matrimónio na lógica do Reino, Jesus responde: há quem não case por causa do Reino dos Céus. Tendo consciência de que esta é uma linguagem nova, acrescenta: quem puder entender que entenda (cf. Mt. 19, 10-12).
A radicalidade do Seu amor ao Pai, no Espírito Santo, é unificadora de todo o Seu amor redentor, tudo é reconduzido a esse acto fontal de amor e exprime-se na radicalidade de serviço do Reino que comunica aos discípulos. Esse amor exclusivo tudo exige, tudo possibilita e Jesus sabe que essa exigência incluirá a Sua morte na Cruz: “Se alguém vem a Mim, sem se desprender de seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não tomar a sua cruz e Me seguir, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 26-27).
Mas Jesus sabe que esta radicalidade do Reino, n’Ele já presente, seria uma realidade do tempo definitivo, que pode já ser partilhada pelos discípulos que aceitam segui-Lo nessa radicalidade, na esperança da plenitude escatológica, em que as maneiras de amar do tempo presente passarão, dando lugar ao amor definitivo, a forma de amar daqueles que participaram na Sua ressurreição: “Os filhos deste mundo tomam mulher ou marido. Mas aqueles que forem julgados dignos de tomar parte no outro mundo e na ressurreição dos mortos, não tomam mulher nem marido; aliás nem sequer podem, porque são semelhantes aos anjos, e são filhos de Deus porque são filhos da ressurreição” (Lc. 20, 34-36).
Seguir Jesus no seu amor virginal é possível porque já participamos na Sua ressurreição e, por Ele, participamos no amor de Deus. A atracção do definitivo, em termos de amor, pode acontecer num coração humano recriado pelo Espírito Santo, aceitando toda a exigência de viver nas realidades do mundo presente, uma forma de amar que só será plena no Céu.

A vitória definitiva sobre a solidão.
5. Na Igreja apostólica encontramos uma abordagem explícita do tema da virgindade como alternativa ao matrimónio, enquanto caminho de vivência cristã do amor. Refiro-me ao texto da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor. 7, 25-39). Trata-se de um texto marcado por uma forte densidade escatológica, dando prioridade às vivências que são da ordem do “tempo definitivo”, que será inaugurado com a última vinda de Cristo, face às realidades do “tempo presente”, transitórias por natureza, entre as quais o Apóstolo coloca o matrimónio, mesmo aceitando-o como caminho legítimo de santidade. “Passará a figura deste mundo” (v. 31).
Deste texto ressaltam algumas características da virgindade escolhida como caminho de fidelidade a Cristo:
* Não é um caminho comum e muito menos se pode impôr. É um carisma, ou seja, uma graça própria e um dom.
* A autoridade de Paulo para propor este caminho é apenas o seu testemunho pessoal e a qualidade de experiência de liberdade que a virgindade pode proporcionar. Não esqueçamos que é o mesmo Apóstolo que disse de si mesmo: para mim viver é Cristo (cf. Gal. 2,20; Fil. 1,21).
* É exactamente na especial relação com Jesus Cristo que Paulo identifica a especificidade da virgindade. Trata-se de uma relação exclusiva, com um coração indiviso, a Cristo, tal como Ele o tinha em relação ao seu Pai Celeste. “O homem que não se casa, ocupa-se só nas coisas do Senhor e na maneira de agradar ao Senhor” (v. 32). É um estado de vida que une a pessoa a Cristo, sem divisões nem partilhas (v. 35).
* E finalmente Paulo acha que este dom de um “coração indiviso” ao amor de Cristo, é a vitória definitiva sobre a solidão, porque cumula completamente as necessidades de amor do coração humano. A novidade deste caminho, que é pascal e escatológico, é sugerida num contraste com o Livro do Génesis. Aí se disse, explicando a plenitude do ser humano como homem e mulher, que não é bom que o homem esteja só (cf. Gen. 2,18). Agora Paulo afirma que é preferível que se fique só com o Senhor (v. 40).
Parece claro nesta intuição do Apóstolo que o matrimónio como vitória sobre a solidão não é a solução definitiva. E a experiência humana mostra-nos que não o é. Só Deus vencerá definitivamente o risco da solidão, mesmo para as pessoas casadas. A entrega total de amor a Cristo, que se exprime na virgindade, proporciona uma realização relacional e amorosa, que preenche cabalmente a necessidade humana de amar e ser amado. É por isso que a virgindade não é só, nem denúncia, nem privação. É a abertura à surpresa de Deus, dom inaudito do amor de Cristo, início de uma nova maneira de amar. A virgindade é possível porque é um caminho de amor novo, plenificante e fecundo.

A fecundidade do amor virginal.
6. Caminho novo de amor, a virgindade não pode ser concebida como negação da sexualidade, ou renúncia ao amor e à fecundidade. Opção que só a fé torna possível, a caminho da virgindade une a pessoa ao amor virginal e esponsal de Jesus Cristo, situa-a no âmago do mistério da Igreja e da sua maternidade fecunda. O âmbito do amor é a edificação do Reino de Deus. O mandamento novo “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, adquire um realismo particular no amor virginal, alarga ao infinito o horizonte das pessoas a amar; o amor simplifica-se no dom total de si mesmo, cada vez mais despojado e gratuito, cujo dinamismo impulsionador é o do próprio Reino de Deus. Que ninguém tenha ilusões: o que torna o amor virginal possível é o próprio amor de Jesus Cristo e a fecundidade espiritual da Igreja.
O próprio Jesus dá a entender que a fecundade do amor virginal é da ordem do Reino dos Céus. Àqueles que deixaram tudo para O seguir, Ele promete, “já no presente, cem vezes mais, em casas, irmãos e irmãs, em mães e filhos, em campos, juntamente com perseguições e no futuro a vida eterna” (Mc. 10,30).
Uma atitude que aparece, inicialmente, como uma renúncia ao mundo e às coisas do mundo, revela-se, na perspectiva da fé, um reenvio ao mundo, a partir de Cristo e do seu amor. Durante dois mil anos, multidões de homens e de mulheres, cativados pelo absoluto do amor de Deus em Jesus Cristo, alargaram o horizonte da sua capacidade de amar, adoraram a Deus com um coração indiviso e amaram os irmãos, sobretudo os que mais ninguém ama, com a própria ternura de Deus. A fecundidade do amor virginal actualiza o amor da própria Igreja pelos homens, ajudando a aproximar-nos mais do amor de Deus. Um coração virginal é mais capaz de amar como Deus ama.



NOTAS:

1- Familiaris Consortio, n. 16
2- Sandro MAGGIOLINI, Il matrimonio, la verginita, Milão (1977), pg. 168
3- cf. Ibidem, pp. 169 e ss

1.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Muito bom. Edificante. Deus o abençoe, meu irmão!

    ResponderExcluir